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Em Lisboa vou a um lar da terceira idade — por razões pessoais e não em campanha eleitoral. Ali, onde uma sociedade sem tempo para os pais nem espaço para a velhice entrega os seus velhos a guardar, não há um só, uma só trabalhadora portuguesa: uma só! São todas africanas e, sobretudo, brasileiras — que, com o seu feitio de ternura inata, substituem-se aos filhos ausentes, tratando os utentes por “minha querida”, “meu amor”. Suponho que sem estes imigrantes os nossos pais e avós estariam abandonados em casa ou ao frio nos jardins públicos, servindo de cenário para as reportagens televisivas sobre os reformados. Obrigado, Bangladesh!
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Ainda em Lisboa, como tantos de nós tantas vezes para não ter de sair para almoçar, chamo a Uber Eats, e lá aparece um indiano, paquistanês ou bengali escorrendo água da chuva e sem tempo a perder para tirar o capacete. Imagino-o à noite, no seu barracão atulhado de outros “assaltantes” como ele, longe do seu país, da sua aldeia, da sua mulher, dos seus filhos, dos seus pais — como outrora os nossos emigrantes na Alemanha ou em França, cujos descendentes hoje votam à distância no Chega. Imagino-o na sua solidão diária, contando os dias e os anos até que uma lei desumana lhe permita o reagrupamento familiar, e sem que nenhum de nós, a quem eles tanto servem, se detenha a pensar como viverão estes homens na flor da idade e privados de tudo — estes “violadores”, como assegura o Dr. Ventura —, mas de cujas violações, assaltos e bandidagem não temos notícia. Obrigado, Bangladesh!
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O Dr. André Ventura, licenciado em Direito e candidato à Presidência da República, também está em guerra contra o comportamento deste “jornalismo”, que, tal como “os partidos de esquerda” e o “socialismo que mata”, desvaloriza “tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal”. O Papa Francisco, um homem que os cristãos e os não cristãos respeitavam, disse em tempos que o que matava era “este capitalismo”, e não o socialismo. Mas é sabido que Ventura não gostava do Papa Francisco, achava-o nada menos do que “um anti-Cristo”. Bem vistas as coisas, Ventura não é cristão, é católico português, coisa bem diferente. “Este jornalismo”, de que Ventura não gosta, é aquele que revela os números e as verdades que contrariam as suas teses sobre os imigrantes: que são eles que respondem pelos lucros da Segurança Social e, graças a isso, a contenção do défice público; que são eles que asseguram uma taxa de natalidade positiva; que são eles que garantem a viabilidade económica da agricultura, da construção civil, do turismo, das pescas; que são eles que limpam as ruas das nossas cidades, que nos trazem comida ou remédios a casa, que tomam conta por nós dos nossos pais e avós, que constroem as pontes, as estradas, as vias férreas e as Expo com que o país se quer mostrar modernizado — e, ao contrário do que queria Ventura, a taxa de criminalidade entre os imigrantes é irrelevante. O que Ventura não suporta é que o jornalismo recorde isso aos portugueses, que vá ouvir os empresários que reclamam mais imigrantes e não menos, que desfaça a tese insultuosa de Ventura de que os imigrantes vivem de subsídios. O que não suporta é que o jornalismo demonstre que é ele que vive de mentiras.
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