Hoje há peixe para grelhar, acompanhado de batatas e brócolos e alguma fruta. ♡♡
👍❤👆
Como um rio correm os dias e este espaço é uma margem onde deito pedrinhas à água.
É um filme em reprise. Igual a outros filmes. Num banco do telejornal, um ministro sua explicações e promete retrospetivamente que não voltará a acontecer. Parece quase uma confissão de adultério. Foi uma coisa sem importância, um disparate, se soubesse que ia ter tantas consequências não o teria feito, de futuro prometo portar-me bem. E respeitar os votos, não os do casamento. Os da política. Que exigem um certo código ético que não se aplica à generalidade dos portugueses. Somos todos iguais mas alguns são mais iguais do que outros.
A política portuguesa contemporânea tornou-se um longo ato de contrição. Uma suprema confissão de presumíveis inocências e de humanas falências. Pequei, não por palavras e atos, mas por omissões. Quase sempre omissões. E a humilhação está ali, à vista desarmada, vagamente embaraçosa. Este foi o espetáculo do ministro que vela pela segurança da nação, e antes velara, presume-se que com certa competência, pela única unidade de polícia que ainda merece algum respeito nacional, a Judiciária. Não é um posto qualquer. É um posto que assenta na confiança do exercício. E todos dispensaríamos ver o titular do posto, e agora da pasta da Administração Interna, ser humilhado por causa de mais um pequeno negócio de uns poucos milhares de euros, envolvendo construtores e empreiteiros. Mais um.
Ricardo Salgado despenhou-se do lugar de potestade que ocupava no dia em que soubemos que tinha aceitado uma “liberalidade” de um construtor civil da Amadora no valor de 14 milhões de euros. Estes mundos nunca se cruzam, a elite do dinheiro e a classe dominante não recebe dinheiro de mãos plebeias sem uma cauda de intermediários. Não se dão. Em Portugal, todos participam da fraqueza, quando se trata de liberalidades não interessa a clivagem social e somos todos amigos.
Qual o pecado do ministro? Aparentemente, nenhuma ilegalidade, apenas leviandade, oportunismo e insensatez. A humilhação é a consequência. Não é um espetáculo original, há pouco tempo o primeiro-ministro debatia-se com paralelos problemas de faturas e empresas familiares e negócios da família na casa de jantar. Sobreviveu ao escândalo, ficou lesionado. O que vamos apurando destes casos miseráveis de dinheiros miseráveis e de facilitações e amizades de conveniência, cinco mil euros não são 14 milhões, é simples. Em Portugal, os políticos nacionais e locais tornaram-se cidadãos ocupados em arredondar os fins de mês, tal como toda a gente. O dinheiro escasseia, os cargos do Estado são mal pagos, não atraem ambição e talento, há que fazer pela vida. Não na escala milionária, que parece ter sido a de José Sócrates, a escala cinco estrelas, mas na escala mediana que é a do país.
***
No Expresso 《《《