2 de julho de 2026

Pedro Mexia opina


Escolas fechadas, escritórios e casas insuportáveis, concertos e jogos cancelados, comboios em caos, a rede eléctrica danificada, hospitais sob pressão, as crianças e os velhos queixosos, os mais pobres a sentir ainda mais a desigualdade, as maleitas da época agravadas (hipertermia, taquicardia, dificuldades respiratórias), aumento da mortalidade sazonal, os casais sem apetência erótica, os vizinhos e colegas irritadiços, descontentamento social, discussões acaloradas sobre o ar condicionado, emergência de uma heat politics, receio dos extremismos. As temperaturas aumentavam agora 0,56 graus centígrados por década, as vagas de canícula eram mais frequentes e intensas, havia uma tropicalização patológica das consciências.

A imprensa francesa das últimas semanas parece uma distopia urbana de J. G. Ballard. A vaga de calor deste ano, que atingiu fortemente alguns países asiáticos, chegou à Europa. E em França, desde 18 de Junho, a situação tornou-se problemática, com o auge no dia 24, data em que se atingiu o valor mais alto jamais registado, 43,3°. Às imagens de aflição somam-se as de alívio, refrigério. Uma álea de sombras num parque, miúdos e graúdos em brincadeiras fluviais, famílias ao fresco em colchões nas varandas, gente que se abriga do sol e procura água e vento, com ventoinhas de todos os tamanhos e toalhas molhadas na cabeça.


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Diz-se que se fala do tempo, ou seja, da temperatura, quando não há nada para dizer; mas as revistas e jornais franceses reconheciam nas suas capas e manchetes que o tempo, neste caso o clima, não é uma frivolidade, como a idade não é, nem a doença. Andamos entretidos, afadigados, alheados, introspectivos, ou o que seja, mas vemos as vidas de toda a gente iguais à nossa, e toda a nossa sofisticação se reduz a nada. Isto não é fatalismo. Conhecemos o suficiente sobre terramotos ou canículas para podermos minorar os efeitos de uns e outras, quando não podemos controlar as suas causas; mas o estarmos sempre sujeitos à água, ao sol, ao fogo, ao frio, ao mar, à chuva, à fome ou à doença servirá também para nos lembrarmos de que somos, camonianamente, um bicho da terra tão pequeno.



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