14 de agosto de 2026

Sérgio Sousa Pinto opina

Desde a Mesopotâmia e das primeiras urbes que não é preciso explicar a ninguém o que é uma cidade. Tanto um nova-iorquino de hoje como um hitita de 1500 antes de Cristo reconheceriam uma cidade, se plantados diante de uma.

Mudando de assunto. A ideia de progresso é muito recente. Antes dela achava-se que se avançava e recuava, de acordo com a sorte, o azar e o favor dos deuses. Salvar com fogueiras e pancada um herege do inferno e convertê-lo à verdadeira fé era, certamente, percebido como uma embrionária manifestação daquilo a que hoje chamamos progresso. Uma política orientada para o aperfeiçoamento social, salvando almas por grosso e atacado.

O verdadeiro progresso na aceção contemporânea vem dos filósofos setecentistas e da Revolução Francesa. A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade passaram a constituir o diapasão do progresso. Ninguém identificaria com o progresso a Rússia governada pelo supremo autocrata do universo, o czar de todas as Rússias, no desvanecido dizer de Joseph de Maistre, o mais obstinado detrator do progresso que a Criação produziu.

Os americanos, sempre dados ao exagero, decretaram o direito natural dos Homens à felicidade, ou pelo menos a fazerem por isso. Outro progresso de monta. Hoje, até parece mal não ser feliz. Através do Instagram todos expomos a nossa exitosa conformidade social, fazendo propaganda à felicidade obrigatória, com uma alacridade que teria indisposto Marco Aurélio, o estoico persuadido que tínhamos nascido para servir e contemplar.

A tragédia irremediável da vida, a luta organizada e a evolução tecnológica trouxeram, nos últimos 50 anos, juntamente com revoluções cruentas e hábitos higiénicos, provas irrefutáveis da possibilidade de um progresso verdadeiro e bom. É possível uma existência mais digna e é possível minorar o sofrimento humano suscetível de ser minorado.

Infelizmente calhou-nos conviver historicamente com desconcertantes e novas formas de estupidez, difíceis de combater porque se apresentam empapadas em suposto “progresso”. E o progresso é bom. Denunciar o progresso nas suas equivocadas encarnações, ou seja, o falso progresso, é equivalente a advogar o mal, a alegar que o mal tem aspetos positivos. Ora o mal combate-se, não se negoceia.

É aqui que voltamos aos hititas e aos que ergueram todas as civilizações conhecidas da História. A civitas é a cidade, é a civilização. Colaboração, convivialidade, cultura, especialização, prosperidade, confusão humana, esterco de cavalo, o antepassado do CO2.

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