18 de abril de 2026

Henrique Raposo opina

 


O erro é comum: o bea­to e o ateu acham que o cristia­nismo serve como instrumento de salvação da alma; no fundo, veem a fé como um empréstimo bancário que garante um T2 na abóbada celestial; até pode ser só uma marquise, desde que fique na ala oeste do paraíso; na ala leste há sempre o perigo de cairmos. O beato acredita neste mecanismo que estabelece uma relação transacional com o céu; o ateu goza com a ideia, claro. Mas ambos partilham o erro de partida. A premissa não é essa. A fé não é um balão para o “eu” subir sozinho ao Reino, é um arpão para puxarmos em conjunto o Reino para a Terra, a ideia é representarmos aqui e agora o amor de Jesus. Deste equívoco individual nasce um equívoco coletivo que se repete século após século: o desejo de apocalipse, que surge quando uma nação julga que pode subir sozinha aos céus como justiceira escolhida. Neste momento há várias nações a pensar desta forma, o Irão, partes de Israel, a Rússia e partes dos EUA, na verdade a Administração americana tem usado linguagem apocalíptica para justificar guerras. Tal como George W. Bush, Pete Hegseth fala como um cruzado, e com uma agravante: a Administração Bush tinha gente sensata, como Rice e Powell; podíamos discordar do racional das guerras no Iraque e Afeganistão (eu discordava na época), mas havia ali uma racionalidade estratégica e ideológica. Agora não há. Vemos apenas uma fúria niilista que habita o peito de quem não consegue perceber o ‘Livro do Apocalipse’. Hegseth acha que a guerra vale por si mesmo, porque é religiosamente justa de acordo com as escrituras (que tresleu). Não, não é a primeira vez que fica clara a aproximação mental entre o Hamas e os reacionários MAGA. Se calhar, Hegseth também julga que os 144 mil referidos em Ap. 14, 3 são 144 mil homens virgens selecionados para a guarda pretoriana de Jesus.

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