Esqueçam misérias do momento ou azedas trocas de cromos sobre Ronaldo, O Nosso Santinho, e Ronaldo, Já Te Ias Embora. Deixem-me recordar-vos Agapito Pinto, o youtuber rural que vos apresentei, aliás, vai para oito anos, e ainda nada disto era o que é hoje, o que só lhe acentua dotes de futurista.
Vocês lembram-se. Filmou-se numa matança do porco, a surgir entre o espectador e os guinchos lá ao fundo, a elucidar-nos que “o porco não quer”. É um género de conclusão adequada à época. Com a espantosa dedução de que os porcos parecem não apreciar ser esventrados, o bom Agapito foi pioneiro de uma, vá lá, uma tendência, chamemos-lhe assim. Conhecemos hoje reles imitadores que nos recordam que “nunca perdemos, só ganhamos ou aprendemos”, e que “todos as grandes caminhadas começaram com um pequeno passo”.
Bastou-lhe uma matança do porco, ao Agapito, para se tornar famoso. Houve também a velhota que fazia 100 anos e morreu no exacto sopro com que apagava as velas e o Agapito estava a filmar tudo, mas o próprio explicou mais tarde que se tratou de sorte acidental, o que se passa é que ele não poderia desperdiçar a ocasião de meter no YouTube e ficar ainda mais conhecido, porque a vida é assim mesmo, e a gente tem de ter faro para o sucesso. Lembrarão que houve milhares de comentários a insultá-lo, a dizer como é possível, quem é este atrasado mental, mas cada insulto é uma visualização, parecem campainhas sem descanso, em pouco tempo ultrapassou os vídeos de miúdas a ganir com guitarras, a ver se as editoras de discos lhes pegam, o pessoal que põe as gracinhas dos filhos no banhinho, as miúdas que se filmam no espelho do ginásio indignadas porque estão a olhar para elas.
Nas empresas estão naturalmente os melhores gajos do marketing, aqueles que cheiram um bom negócio ainda estamos nós todos a dormir, mas de início também esses
— Isto é inacreditável, abjecto, como é que isto tem tantas visualizações.
Mas se há coisa que o pessoal do marketing sabe, porque estudaram essas cenas, e as estratégias, os targets, o build-up, se há coisa que lhes levanta logo a orelha são milhares de clientes, ali à espera, sentadinhos, mesmo, mesmo à espera de um bom anúncio que os direccione da página do Agapito para uma empresa de prestígio, que vende inutilidades de última geração com que a malta se endivida.
E é então que o Agapito tem mais uma ideia do cacete, lembra-se que os portugueses adoram acidentes, não deve haver cena que mais os excite, basta dois carros darem um toque que só partiu dois piscas e é tudo a abrandar, é logo uma fila que alto lá com ela, o polícia bem pode irritar-se.
— É andar, é andar...
É então que o Agapito tem mais uma ideia do cacete, lembra-se que os portugueses adoram acidentes, não deve haver cena que mais os excite
Que a malta não anda enquanto não perceber, enquanto não vir bem, então se a coisa foi a sério, um dos carros a arder e o outro capotado, então é o pagode, a fila abranda e abranda e fica mesmo parada, com sorte ainda se vê um ferido, ou com mais fortuna um morto, esse momento de alívio de todo o mirone.
— Ainda bem que não fui eu.
Não tendo nenhum curso de Marketing ou Gestão, o Agapito é habitado por um instinto empreendedor, de forma que começa por se colocar numa curva perigosa a caminho da aldeia, com a câmara ligada, a ver se alguém se balda a derrapar, mas os dias passam e nada, e o Agapito num desespero, pelo que tem de puxar pela cabeça, afina estratégias, como se faz nas reuniões das empresas, e numa só semana deita a mão a gatos, galinhas, coelhos e cachorros da vizinhança, enfia-os em cestas e sacos, volta para a curva apertada, aponta a câmara, e um belo dia lá vem um carro a descer, por acaso é a Adozinda com os filhos, mas o Agapito não sabe, e, que soubesse, pega no gato pelo cachaço, atira-o para a estrada, a Adozinda, que já guia mal sem gatos a atrapalhar, guina tudo à esquerda contra uma árvore, e quando já tem filmagens suficientes para o que se chama o início de um projecto, mete tudo na internet, com o aviso que nunca falha.
— Cuidado imajens munto chocantes.
E tanta gente vai lá ver, mas tanta gente, que nos jornais e nas televisões, depois de uma primeira hesitação.
— Isto é terrível.
Alguém lembra que os vídeos do Agapito já trazem aquela etiqueta de êxito a que é muito difícil, impossível resistir.
— Sim, mas a verdade é que já é viral.
— Sim, lá isso é, lá isso é.
— Se não pomos no ar.
— Alguém põe.
— E repara uma coisa, um acidente é notícia, tem de ser, senão estamos a dizer às pessoas que é uma coisa normal.
— Sim, de facto.
— Aproveitamos para entrevistar entidades sobre os perigos nas estradas, o álcool ao volante, o desrespeito pela velocidade.
— Sim, é por aí, bem visto, bem visto.
— Serviço público, no fundo.
— Sim, no fundo.
— Até falamos da desertificação do interior abandonado, estradas em más condições por falta de investimento.
— Isso.
— E pensa assim, os acidentes têm um lado bom, aparecem mais corações para os transplantes.
— Pois é, não me tinha lembrado, há mais essa, é só vantagens.


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