Helena Bento
Foi no ano passado, num jantar de família realizado pouco antes das legislativas, que Jorge (nome fictício) descobriu que a irmã votava no Chega. A revelação “caiu como uma bomba” e desencadeou uma discussão como nunca tinham tido. “Começámos aos berros no restaurante. Sabia que era conservadora e religiosa, mas nunca imaginei que pudesse ser de extrema-direita. Não percebo como é que alguém que diz acreditar na mensagem de Cristo apoia um partido racista, com um discurso de ódio contra várias minorias”, conta. A troca de argumentos prolongou-se por mensagens nas semanas seguintes, até perceber que “as convicções estavam tão arreigadas que não havia diálogo possível”. “A relação esfriou. Falamos muito menos e só nos encontramos nas datas ‘obrigatórias’, como aniversários e Natal. A política tornou-se um tabu. É triste”, lamenta.
Histórias como a de Jorge multiplicam-se num contexto de crescente crispação e intolerância no debate público, marcado pela radicalização de posições políticas e pela dificuldade em lidar com a diferença. O confronto deixou de ser apenas ideológico para se tornar emocional, transbordando para as relações pessoais. Este fenómeno, conhecido como polarização afetiva, traduz-se “numa organização da sociedade em torno de uma lógica de ‘nós versus eles’, em que a divergência política gera aversão, desconfiança e hostilidade”, explica Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos. Como sublinha Pedro Morgado, psiquiatra e professor na Universidade do Minho, aquilo que as pessoas pensam passa a confundir-se com aquilo que são, reduzindo a complexidade moral a uma oposição entre “bons” e “maus”.
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1 comentário:
Infelizmente as pessoas exacerbaram suas sensibilidades e já não dá pra termos diálogos saudáveis!
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