A minha tese não vem nos gráficos, mas é verdadeira. A verdade não tem necessariamente uma representação quantitativa, sobretudo se estivermos a falar dos invisíveis. E o trabalho doméstico, sobretudo dos avós, é invisível. Invisível mas omnipresente. E até vos digo que a ascensão do mundo populista está relacionada com a decadência do mundo dos avós.
Escrevo há quase 20 anos crónicas sobre pobreza que convocam memórias da minha infância nesse planeta distante e implausível chamado Portugal do século XX. E é engraçado perceber que recebo há quase duas décadas uma resposta padrão da parte de muitos leitores: gostam, sim, mas desconfiam que estou a inventar, que estou a escrever ficção. Porquê? Em cabeças mais privilegiadas, a pobreza é sempre inverosímil; os pobres podem ser demasiada realidade para suportar, demasiada areia para a camioneta burguesa. É por isso que a burguesia, de esquerda e de direita, cria sempre as suas narrativas para higienizar a pobreza, para torná-la mais verosímil e previsível aos olhos da racionalidade objetiva e utilitária. Também é por isso que a burguesia acaba tantas vezes a insultar indiretamente os pobres com estas narrativas paternalistas. Querem um exemplo? Quando insiste em encontrar na pobreza a causa da crueldade. Não, não. A brutalidade da pobreza pode criar um clima de violência criminal no sentido do pequeno roubo e do tráfico, porque aquele garoto está a pensar em fazer 100 euros hoje para sobreviver. Isso é diferente da violação, do mass shooting, da instrumentalização da net para fazer mal aos outros — como dizia há dias uma juíza brasileira, esta crueldade que faz o mal por gosto até costuma vir de lares confortáveis.
Adiante.
A minha resposta é sempre a mesma: não posso fazer ficção no jornal; estas histórias são verdadeiras. E o curioso é que ainda nem sequer contei a mais inverosímil de todas. Vou contar hoje, com a vossa permissão. Eu tinha um tio chamado Inácio, irmão da minha avó. Era alcoólico. Era o alcoólico, um bêbado cinematográfico. Era um homem perdido entre o campo, onde nasceu, e o subúrbio da cidade, onde acabou por viver mais de metade da vida enquanto maltês do asfalto. Era incapaz de manter um emprego. O seu dia assim: andava pelos bairros junto ao rio — entre Sacavém e Santa Iria de Azóia — a recolher papelão que depois vendia às fábricas dos primórdios da reciclagem. Andava pelas estradas com um carrinho de mão cheio de papelões atados com uma corda. Atar aquela corda para que o papelão não caísse era o máximo do seu pensamento racional. O dinheiro que fazia era para o vinho. Nos cafés, ainda usava a velha unidade de medição: meio quartilho. Era solteiro porque nenhuma mulher o aceitou, como é bom de ver. Vivia atrelado à minha avó. Problema? A minha avó vivia com a minha tia. E era impossível ter um homem assim em casa. Não vou entrar em detalhes, mas digamos que a higiene não era o seu forte. Portanto, ele acabou a viver no quintal ao lado literalmente da capoeira. Da esquerda para a direita, era assim o quintal: uma garagem para um carro que não existia, a capoeira e o barracão do Ti’nácio. Um balde era retrete.
No entanto — e é aqui que a fábula inverosímil do amor começa a cortar o efeito da distopia inverosímil da miséria —, no entanto, dizia eu, a minha avó todos os dias tratava deste irmão. Dava-lhe almoço numa hora morta, pelas 11h, longe do resto da família.
***
Com avós por perto, o horrível passa a ser mau e o mau passa a ser suportável ou até feliz, com sorte.


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