3 de agosto de 2024
Poema da malta das naus
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Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal."
António Gedeão
Opiniões
No Observador
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As regras do abominável mundo novo são decretadas e aplicadas por doidos à solta, e não, conforme acontecia até há uma ou duas décadas, pela biologia, pela física, pela lógica. | |||||||||
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Da “maldição” do petróleo – a Venezuela tem as maiores reservas do mundo – à “bênção” do socialismo bolivariano, a Venezuela e o seu povo não param de sofrer. | |||||||||
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A organização das Olimpíadas de Paris sabia que se tratava da Última Ceia pois, caso contrário, a ‘organização’ não sabia o que organizou, o que é absurdo. | |||||||||
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A liberdade é um caminho a percorrer e é por isso que sempre foi assustadora. Todos queremos ser livres de qualquer coisa, mas no momento em que nos tornamos livres, temos de escolher “qualquer coisa”. | |||||||||
Boiavam as palavras
"Os pescadores dormiam cansados, ao sol, nos barcos.
As filhinhas dos pescadores brincavam na praça, de mãos dadas.
As filhinhas dos pescadores cantavam cantigas de sol e de água.
Os pescadores sonhavam com seus barcos carregados.
Os pescadores dormiam cansados de seu trabalho.
As filhinhas dos pescadores falavam de beijos e abraços.
Em sonho, os pescadores sorriam.
As meninas cantavam tão alto,
que até no sonho dos pescadores
boiavam as suas palavras."
Cecília Meireles
Intimidade (poesia)
"No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade."
José Saramago
2 de agosto de 2024
Melhor definição de abraço
Ana Jácomo, brasileira .
"Escrever é meu jeito preferido de prece".
Lançou em 2022 pela Ed. Autografia o livro "Cheiro de flor quando ri".
Mas o melhor do abraço não é a ideia dos braços facilitarem o encontro dos corpos. O melhor do abraço é a sutileza dele. A mística dele. A poesia. O segredo de literalmente aproximar um coração do outro para conversarem no silêncio que dá descanso à palavra. O silêncio onde tudo é dito sem que nenhuma letra precise se juntar à outra. O melhor do abraço é o charme de fazer com que a eternidade caiba em segundos. A mágica de possibilitar que duas pessoas visitem o céu no mesmo instante.
Maria da Fonte, lendária
A Volta a Portugal (ciclismo) passou há pouco pela Póvoa de Lanhoso, terra da lendária Maria da Fonte, figura real ou imaginária da nossa História. Entrou também na nossa literatura.
Outra jóia em Évora
A fundação do Paço de São Miguel remonta à época muçulmana, integrando a alcáçova de Évora, que correspondia à cerca romana e medieval. A ligação deste palácio à história de Évora foi tal que Túlio Espanca o classifica como "o edifício palaciano mais carregado de tradições" da cidade.
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Foi depois comprado pelo lavrador Vicente Rodrigues Ruivo, e, em 1958, foi adquirido pelo Engº Eugénio de Almeida, conde de Vilalva, que reabilitou o palácio que estava muito degradado e ali estabeleceu a sede da Fundação Eugénio de Almeida.
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O interior dos edifícios é de igual valor e interesse: três salas do piso térreo estão cobertas por abóbadas pintadas a fresco pelo mestre Francisco de Campos, que assinou e datou uma delas com "F.O. de C.A.P.V.S., 1578". Trata-se de um conjunto de inspiração mitológica e ao gosto italianizante da época, com figuras avulsas e profusão de flores e frutos, pinturas de ornatos, alegorias triunfais e composições inspiradas nas Metamorfoses de Ovídeo, segundo estampas maneiristas flamengas e, num dos casos, celebrando a conquista de Túnis, em 1535, onde tomou parte o 2º conde de Basto.
Estas pinturas constituem um dos mais importantes conjuntos decorativos do país, raras não apenas pela qualidade da sua execução, mas igualmente pela grandiosidade do conjunto, pela temática profana apenas possível numa encomenda particular e visivelmente erudita, e pela sensualidade e paganismo de alguns motivos.
futuros que nunca virão
Então compreendi perfeitamente o que gerava a dor. Não era o corte com a ponta da faca, a topada na quina da cama, o amigo que não liga mais, o café que sujou o fogão, as palavras duras, as notícias na tv, obviamente isso soma-se ao fardo, mas não é ele em si. A dor era gerada pela sede insaciável do nada. Pois quando não se tinha o que queria sofria e quando conseguia almejava outra coisa para sofrer. E é por essa sede que os humanos consomem seus dias, pelos futuros que nunca virão ou que serão fadados quando chegarem. E a maior idiotice era perceber: eu também era um desses tais que nunca estava de barriga cheia.
andamos errantes (poesia)
Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo
É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou
Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos
Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem
Ana Hatherly
in "Sem Amor"
É chanfana
Chanfana é uma das receitas mais tradicionais da Serra da Lousã.
Segundo a lenda, terá surgido no Mosteiro de Semide como consequência dos foros pagos pelos aldeões que habitavam os terrenos do mosteiro.
Conta-se que durante o mês de agosto e até ao dia de S. Mateus, as freiras de Semide recebiam as suas “rendas” e muitos dos moradores pagavam com cabras e ovelhas. As freiras não tinham disponibilidade, nem meios para manter um rebanho grande, por isso aprenderam a cozinhar e a conservar a respetiva carne, aproveitando o vinho que também lhes era entregue pelos rendeiros, assim como o louro que tinham na sua quinta, os alhos e outros tantos ingredientes.
A carne assada no vinho mantinha-se no molho gorduroso solidificado, durante largos meses, sem estragar e a chanfana era guardada ao longo do ano nas caves frescas do mosteiro.
Uma outra versão da história diz que a receita terá sido criada pelas freiras durante a terceira invasão francesa para evitar que os soldados franceses roubassem as cabras e as ovelhas da região.
[Carne de cabra, alho e vinho tinto são os ingredientes mais básicos. ]
Em 2007 Venezuela
Lisboa, 20 Nov (Lusa) - O presidente venezuelano, Hugo Chávez, elogiou hoje a comunidade portuguesa residente na Venezuela pela sua dedicação ao ramo alimentar, alegando que representam "trabalho" e "alegria", porque "barriga cheia é coração contente".
Hugo Chávez falava à chegada a São Bento, depois de ter sido recebido pelo chefe do Governo português, José Sócrates, à entrada da residência oficial do primeiro-ministro.
Nas breves declarações políticas feitas antes do jantar, Hugo Chávez falou a seguir a José Sócrates.
Logo nas suas primeiras palavras Hugo Chávez revelou o seu estilo informal, provocando risos entre os diplomatas dos dois países, ao fazer uma pergunta directa ao primeiro-ministro português:
"Quanto tempo falaste tu? Cinco minutos?", questionou o chefe de Estado venezuelano, dando assim a entender que não queria quebrar o protocolo, falando mais do que o anfitrião, o chefe do Governo português.
Além de cumprimentar José Sócrates, o presidente venezuelano deixou também uma saudação especial a "Mário" [Soares], que também esteve presente no jantar de São Bento.
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