4 de agosto de 2026

Clara Ferreira Alves opina

Em Portugal, este momento seria ideal para o humor político. Os bonecos escrevem-se sozinhos

Há dois modos de olhar e sentir o estado decrépito da política portuguesa. Decrépito no sentido de velhice avançada, descrédito das instituições, situações ridículas ou as partículas de irrelevâncias que descrevem o debate nacional e o estado da nação.


Há o modo indignado e vexado em que os agentes da pública indignação acusam a democracia de decadência e vexame e apelam à aplicação da gravidade a tudo o que mexe. Este modo não é trágico nem tragicómico, embora aspire a tal. É histriónico. E há o modo da comédia, o de considerar que há momentos de inexcedível ridículo em tudo o que mexe em política, sendo a criação de “bonecos” satíricos mais vexatória sem o drama e o esbracejar. Nestes casos, o grande exemplo é o humor inglês, que já teve momento de grandeza e que caiu, tal como a democracia, num estado larvar e sem graça.


A tradição de “Yes, Minister”, continuada na série “The Thick of It” são dois bons exemplos de como dar cabo dos bonecos políticos e da mensagem. “Yes, Minister” é amplamente citado, “The Thick of It” é menos conhecido. Eu traduziria “The Thick of It” por “No Cerne da Coisa”, para expressar a pomposidade vazia do discurso.


“The Thick of It” teve como criador e diretor Armando Iannucci, um escocês de Glasgow, descendente de italianos. Na sátira política é imbatível. É um produto de Oxford, e começou a escrever, dirigir e produzir sitcoms muito cedo.

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