8 de agosto de 2024

Bailarinas de corda



«Quando a autora nos convoca a ler estas mulheres, bailarinas de corda, convida-nos para um caminho dançante que nos vai apurando sentidos, sendo que - ao mesmo tempo que os aperfeiçoamos serenamente - vamos integrando partes de nós e conhecendo partes de outras, concomitantemente à descoberta da mulher autora - a que atende à natureza, a que está enlaçada com os outros na sua subtileza observante enquanto navega pelo sentir de cada uma das mulheres a quem tributa os seus poemas. (...) Bailarinas de corda são mulheres sábias, mulheres que se revelam no dar ao outro, mulheres que cuidam e outras que, numa passividade serena, são capazes de esperar pelo que a vida lhes possa aportar. Mas, algumas mulheres, como descreve a autora, só encontram consolo no luar, porque é grande o vazio sentido que só incrementa o cansaço. Outras ainda, são poetisas, psicanalistas, professoras, mães.... Umas, como refere a autora, visíveis desde a raiz, ao passo que outras, escondendo a sua essência, apenas mostram a beleza ao outro maquilhando o sofrimento. Revelam-se aqui mulheres, bailarinas de corda, distintas no que respeita ao seu sentir e ao agir, cujas palavras as vão modelando e transformando.»

Isabel Mesquita (do prefácio)

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LÍLIA TAVARES, in BAILARINAS DE CORDA 

Há mulheres que já não choram. São rios subterrâneos os seus olhos. Calaram o ruído das águas para não acordarem a volúpia. Vedaram-lhes caminhos, aqueles que as conduziam apressadamente ao princípio do prazer. Se ainda assim, tentarem passar os arames e deixarem agarrados nas cercas pedaços de si, dos panos dos vestidos e até lágrimas de sangue, não lhes sobrará força para rastejarem nas veredas do deleite. Não gritam. Secaram-se nelas as palavras. Não fogem. Já se esquivaram de dentro dos seus corpos há muito. Parecem sepulcros fechados por chaves que se perderam. Esperam ocas, apetecidas, armadilhadas, como se pudessem ex(im)plodir de prazer.

Lembrar Florbela Espanca

Vila Viçosa: Casa Florbela Espanca inicia comemorações dos 130 anos da poetisa








A Casa Florbela Espanca em Vila Viçosa acolheu no passado fim de semana a abertura das comemorações dos 130 anos do nascimento da poetisa.

O evento contou com a presença de diversas individualidades e amantes da poesia, que se reuniram para celebrar a vida e obra de uma das figuras mais importantes da literatura portuguesa.

As comemorações dos 130 anos do nascimento de Florbela Espanca irão decorrer ao longo do ano, com diversas iniciativas culturais e literárias que visam dar a conhecer a vida e obra da poetisa a um público mais vasto.

O teu retrato, Mãe!












Em cima da minha mesa, 

Da minha mesa de estudo, 

Mesa da minha tristeza 

Em que, de noite e de dia, 

Rasgo as folhas, leio tudo 

Destes livros em que estudo, 

E me estudo (Eu já me estudo...) 

E me estudo, 

Em cima da minha mesa,

A mim,

Também,

Tenho o teu retrato, Mãe!


À cabeceira do leito, 

Dentro dum lindo caixilho, 

Tenho uma Nossa Senhora 

Que venero a toda a hora... 


Ai minha Nossa Senhora 

Que se parece contigo, 

E que tem, ao peito, 

Um filho

(O que ainda é mais estranho)

Que se parece comigo,

Num retratinho,

Que tenho,

De menino pequenino...!

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José Régio 

Opiniões

 No Observador 

Fotografia do Colunista
Alexandre Borges

A república dá-te asas

Melhor do que pagar uma 

companhia aérea pública 

para competir com os 

privados, só mesmo pagar 

duas companhias aéreas 

públicas para competirem 

uma com a outra.

Fotografia do Colunista
Bruno Bobone

Não assassinem o porto de Lisboa

O desenvolvimento da cidade 

de Lisboa não passa por 

anular o seu porto, mas por 

aprender a conviver com ele,

aproveitando as suas 

vantagens e promovendo o 

seu futuro.

Fotografia do Colunista
Elvira Cunha de Azevedo Mea

A marca judaica na construção de Portugal

Afonso Henriques criou o 

título de “arrabi-mor do reino”, 

a primeira estrutura 

administrativa independente 

para os judeus, tendo Yahia 

Aben-Yahia ocupado o cargo.

Fotografia do Colunista
David Pinto Cavaleiro Ferreira de Almeida

A queda da Venezuela: uma nação refém da tirania

Para compreender a situação 

atual na Venezuela, é impor-

tante fazer uma breve retrospe-

tiva, especialmente para 

informar a minha geração 

sobre o que foi a Venezuela 

e o potencial que tem.

7 de agosto de 2024

un mar de azafrán (poesia)








La luz se duerme sobre lo que existe

insensible al transcurso de las horas.

Una gota de azul entre tus ojos,

un corazón desenredó mis años.


El tiempo se confunde: no distingue

el trigo de un puñado de naranjas,

y todos somos puertas en la vida

ávidos de encerrar la primavera.


Pero hay campos de nardos en tus senos
,

hay mosto entre tus labios, hay espigas

copiadas sobre el oro de tus piernas,

hay un mar de azafrán, hay esmeraldas

prendidas de tu pelo, hay la bandera

victoriosa en los campos de tu cuerpo.

 

Carlos Martínez Aguirre

 

É bom em qualquer lugar

 
Digo eu que gosto muito de gelados. 

Biológico

 É mesmo biológico: planta, terra, água. 



A Norte (Portugal)





 

Teu rio (poesia)




a foz do teu rio

tem caminhos pintados
de olhares e mãos enlaçadas

não perco essas águas sinceras
como pincéis sujos de vida
que brotam com o sol nessas margens

assim obedeço meus olhos
e parte de mim se embeleza
perto de um coração selvagem

Renato Tapado 

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Publicou poesia:
Poemas para quem caminha (1987)
Sete procuras (1988)
De laços abertos (1990)
Gravuras (1992)

Além de poesia também escreve prosa poética, romances e contos.

O Pinhão (Douro)

O PINHÃO


Lá em baixo, na curva do rio, vazadouro e fornalha, está o Pinhão.


Belo! belo! dirá o turista. E o burocrata: progressivo.


Mas o Pinhão não é nada disso, é mais do que isso, não é nada


do que mostram os documentários de cinema ou qualquer 'Life' comercial.


Pinhão!, capital do suor, os teus caminhos são pedaços de sangue coagulado.


ANTÓNIO CABRAL Poemas Durienses (1963)


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"As duas notas mais fundas da poesia de António Cabral neste livro vão para a terra transmontana, dramática e revolta, e para o homem, sobretudo o humilde, que por lá moireja e sua as estopinhas. A poesia da natureza agita-a uma sintaxe bem articulada, e patente emoção dá frémito aos poemas, mas o maior mérito vai para as composições onde surge o homem e o seu drama, e a expressão se condensa.” 

– João Maia

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Mais um poeta

Saulo Pessato 


⁠te amo

como quem faz silêncio
para apreciar os detalhes;
te amo
como quem acha
que é cedo para se declarar;
te amo
como quem vai embora
sem dizer o que sente;
te amo
como quem acredita
que não existe uma frase
para dizer que te amo
que represente
como realmente
te amo.

Saulo Pessato

Duas rainhas


 

Opiniões

No Observador 

Fotografia do Colunista
Maria João Avillez

Climas, estalajadeiras, livros (e mais desabafos)

Por agora esta estalajadeira 

atirará para um desejado 

entre parêntesis, a casa, os

clompromissos, o clima, os

supermercados, os netos e 

os primos dos netos e 

levantará voo para outro 

poiso no Atlântico.

Fotografia do Colunista
Henrique Pereira dos Santos

Um manicómio em autogestão

Esta descrença,este desinteresse,

 a consciência da manipulação

 em função dos interesses

 políticos, é uma “chuva

 dissolvente” que corrói

 a capacidade de a adminis-

 tração pública defender o 

 bem comum.

Fotografia do Colunista
Tiago Dores

É da natureza do PCP estar muito para lá de Maduro

Depois de ver os comunistas

venezuelanos pedirem ao 

PCP para moderar os ímpetos

 comunas, só falta mesmo ver

 António Guterres a pedir à

 Greta para não ser histérica

 com as alterações climáticas.

Fotografia do Colunista
Lídia Pereira

A Democracia é inevitável

A Venezuela pode ser o nosso

“teste do algodão”. Não 

podemos iludir-nos e pensar 

que o cinismo político vai 

resultar quando claramente 

não resultou no passado. 

Não abandonemos a 

Venezuela e o seu povo.


6 de agosto de 2024

A casa

 

Obsolescência



A solidariedade se tornou rara; a gentileza, obsoleta.

Janaina Cavallin

Despedida (poesia)

 


É quando um espelho, no quarto,

se enfastia;

Quando a noite se destaca da cortina;

Quando a carne tem o travo da saliva,

e a saliva sabe a carne dissolvida;

Quando a força de vontade

ressuscita;

Quando o pé sobre o sapato

se equilibra

E quando às sete da tarde

morre o dia

- que dentro de nossas almas se ilumina,

com luz lívida, a palavra despedida.


David Mourão Ferreira



A Norte


 




Lançar pontes

 

Certamente mais compensador do que lançar bombas.

Cortar os espinhos

 



O Amor Tornado Simples

o amor, de complicado que é, tem de ser tornado simples pelos amantes. cortar-lhe os espinhos todas as manhãs, ou à noite, se a lua o permite. para que os dois possam subir pelo tronco e roer as folhas odoríficas como as de certos arbustos ou de menta que lembra apenas as coisas doces. não há nada complicado no amor, a não ser vivê-lo com intensidade, não querendo outra coisa do mundo todo, durante esse instante.

Possidónio Cachapa




Planícies de silêncio



Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face


Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo

                        [em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio


Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, 

in 'Livro Sexto'