Caro leitor,
É com um enorme peso na consciência que confesso não ter ligado nenhuma ao SMS da Proteção Civil a avisar para a tempestade Kristin. Estou farta de chuva e fui à minha vida, o dia em que o “comboio de tempestades” (a expressão é boa) se aproximava de nós era o dia do debate Seguro/Ventura, o comentadódromo estava ao rubro, na rua como na comunicação social falava-se mais do dérbi na TV do que do tempo e o SMS também não era grande coisa - "vento intenso, fique atento, siga as recomendações". Os autarcas ficaram à espera para ver, o Governo nem se ouviu, não houve conferências de imprensa nem de ministros, nem da chamada Proteção Civil e, quando a tragédia arrasou a zona centro de madrugada, o grosso do país dormia. Desprevenido, porque nunca se previne. Frágil, porque nunca aprende com o que falhou. E incompetente, porque só adere à realidade quando o mundo lhe desaba em cima.
Lembra-se quem chamou a isto "o país do improviso"? Foi Henrique Gouveia e Melo, um mau candidato presidencial que não daria um grande Presidente da República, mas que todos vimos saber como se faz quando é preciso planear e montar uma gigantesca operação logística, mobilizar meios e gente e, sobretudo, dar ordens. Na política não se usa dizer “dar ordens”, preferem falar de "núcleos duros" ou de "centros de coordenação política", mas perante o aviso Kristin não houve nem uma coisa nem outra. As vésperas não foram preparadas para o dia e quando, após o comboio passar, começámos a acordar, estremunhados e devagarinho, para um cenário de terror, quase um milhão de pessoas sem comunicações, água, luz, casa, apoios, respostas, quase um milhão sem perceber nada num quadro de desamparo que levou dias a compor-se, veio-me à cabeça o almirante.
Esta gente ouve falar das alterações climáticas, morre de calor quando o país arde e acaba sem casa, na rua e à chuva, mas nunca foi preparada para nada disto. Os autarcas adoram pavilhões e fogo de artifício mas gastam pouco em planos de gestão de crise, geradores, estruturas de recuo ou ligações à rede do Sr. Musk. As preleções do primeiro-ministro também têm sido mais sobre imigrantes, segurança, baixa de impostos e Mouraria, deixando o clima para os ativistas. E a Proteção Civil é um poder muito sério, que quando os Governos mudam dá muitas cambalhotas, entre gente competente, boys, girls e muita reestruturação, mas desta vez nem houve briefings com informação útil. De repente, fica um milhão de gente a ter que valer-se a si própria.
O lado bom da tragédia é que Montenegro ficou com parte da lista feita para a remodelação inevitável. Maria Lúcia Amaral é uma respeitabilíssima jurista e foi ótima Provedora de Justiça, mas quando diz não saber o que falhou não pode ser responsável pela Administração Interna (Montenegro nunca preencheu a vaga na Provedoria, talvez pensasse devolvê-la à casa de partida). António Leitão Amaro não pode ser porta-voz do Governo, a menos que o primeiro-ministro se esteja nas tintas para a imagem do executivo (o vídeo a auto-promover-se cheio de si no meio da tragédia é indigente, mas como ele tem competências e poder próprio e Montenegro não o pode deixar cair, talvez responsabilizá-lo por uma pasta daquelas que doem, porque não Saúde, ou mesmo Administração Interna?). E Nuno Melo é outro ato falhado. Não pensou nas Forças Armadas para a prevenção, mas apareceu no rescaldo a mostrar-se ao lado de um minicontigente (e mesmo assim preocupado, porque um dos sargentos, coitado, fazia anos).
Não temos que voltar sempre à tropa, mas é irresistível. Num país com horror ao planeamento, é inexplicável porque é que não se recorre mais às Forças Armadas. É talvez a única instituição ao dispôr do Estado intrinsecamente treinada para planear, coordenar e dar resposta às populações, com gente competente em múltiplas valências. E se percebemos isso nas vacinas covid, um sucesso que até deu a volta à cabeça de um almirante que começou a pedir que o enforcassem se o vissem seduzido pela política e acabou a seus pés, também agora tinha feito a diferença chamá-los preventivamente ao terreno, com geradores, lonas, tendas e mantimentos. Mas não. Só chegaram no rescaldo, às pinguinhas, e após a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) reconhecer que precisava deles. Era bom sabermos porquê.
Guerras de corporações, guerras de poderes, ausência de comando e o mexilhão que se lixe? Montenegro não perde tempo a falar destas coisas, diz que está cá "para resolver os problemas das pessoas" e, como adora a palavra "superação", vai-se superando. Após 24 horas a patinar, ligou o turbo (também ligou para Bruxelas) e reagiu como mais gosta, com um pacote de 2,5 mil milhões para acudir a famílias, empresas e autarquias e ir fazendo pela vida. Nada que garanta que não acaba tudo na mesma. Lembram-se do Siresp, a rede de comunicações de emergência do Estado? Nasceu com Guterres em 1995, teve problemas legais com Barroso, Santana e Sócrates, só chegou a todo o país em 2013, somou falhas escandalosas nos incêndios de 2017, foi reforçada com Costa, teve buscas da PJ e suspeitas com contratos e, em 2021, foi anunciado que estava "em fim de vida". Montenegro ía acabar com ela, mas vieram as eleições de maio e a Kristin provou que a rede Siresp ainda é o que era: décadas e milhões, sempre a falhar.
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