3 de fevereiro de 2026

Opina Clara Ferreira Alves

 

Em Portugal, a palavra de ordem continua a ser escolher sempre a hipótese mais barata e depois logo se vê.


É comovente ver a quantidade de peritos e especialistas que este país tem. Quando acontece uma catástrofe, que começam a ser habituais, incêndios no verão e inundações no inverno, mais a permanente ameaça do sismo, começa o desfile de peritos e especialistas nas televisões, que alertam, avisam, repreendem, recordam e lamentam, explicando com voz pausada como tudo poderia ter sido diferente. E a catástrofe evitada. Ninguém os ouviu antes.

Temos também, a propósito de extremos, uma nova nomenclatura para as catástrofes, “eventos climáticos extremos”. Nada de emergência climática, nada de catastrófica desobediência à natureza, nada de aquecimento global, nada de, pelo menos isto, alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global. Temos eventos, uma interpretação pós-moderna do fenómeno que dá a entender que, enfim, os eventos podem ou não repetir-se, mas são, na essência, de combustão espontânea e sem causa. O evento inventa-se e extingue-se. Não tem causa, ou tem uma causa excecional, e tem consequência. E para a consequência temos os salvadores da pátria, os políticos e os fundos europeus.

Em Portugal, devastado por “eventos climáticos extremos”, abriu a caça aos fundos, embora haja outros caçadores na Europa com semelhantes intenções, como a Itália, que a sul recebe “eventos climáticos extremos”. A Sicília também tem problemas de construção e de desenvolvimento económico e humano, além da trágica tendência para a apropriação indevida de fundos por atores locais que controlam o acesso. Muitas vezes, uma coisa em família, uma coisa nossa, cosa nostra. Ali, a criminalidade é profissional. Nós somos especialistas da negligência.

Os peritos e especialistas, na infinita sabedoria, usam muito a palavra garantidamente, um advérbio difícil. Garantidamente isto, garantidamente aquilo. Quando se lhe pede uma quantificação, ficam alarmados. Ficámos a saber que a rede energética enterrada, que poderia ter evitado, garantidamente, as piores consequências dos eventos extremos, não deixando as populações sem energia, sem comunicações, às escuras e abandonadas ao temporal, custa cinco a seis vezes mais que a rede energética em torres que o vento levou. Deve ser por isso que não foram enterradas. Era caro.


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