Charles Darwin ficou muito intrigado porque só alguns humanos coravam. Em termos evolutivos aquilo parecia um paradoxo: era fisiologicamente involuntário e psicologicamente angustiante. O rubor atuava simultaneamente como uma barreira cognitiva à fluência conversacional. Mas, pronto, também servia como um facilitador de confiança e de apaziguamento social. Há como que uma credibilidade em quem cora, servindo como um travão à mentira e mesmo uma certa demonstração pública de reconhecimento de que se tinha violado a norma.
Mas porque é que só alguns, poucos (essencialmente “mulheres virtuosas de então”) coravam? Mistério.
Dizia-se que o rubor fora desenhado por Deus para “expor a vergonha humana” e garantir a moralidade. Mas Darwin percebeu que ela era quase uma “assinatura de humanidade”: o pensar no que os outros pensam de nós. Em solidão absoluta não coramos, constatou. Dependia da “presença do olhar alheio”.
Corar para o ecrã: Darwin não previu.
Durante o século XX o “corar” foi visto essencialmente não como uma questão de virtude, mas de bloqueio. Um impedimento à sociabilidade. Um foco de ansiedade que explodia e libertava adrenalina, já temendo a possibilidade de tal acontecer. A criação de atenção autofocada — “estou vermelho como um tomate, toda a gente está a reparar” — e o colapso da fluência. O corar, enquanto perversão maior da timidez, era um bloqueio maior.
O ciclo da eritrofobia (o medo patológico de corar), ou da profecia autorrealizável, é uma condição impeditiva da interação social. Os indivíduos, ao temerem a mera possibilidade de corar, faziam-no acontecer. Situações terríveis para quem as vive. Prisões sociais, apenas devido ao facto de existir um fluxo sanguíneo na face impulsionado psicologicamente.
Na era do homem de negócios implacável, controlado emocionalmente, ter um oponente a corar é como ter um cão a jogar póquer e a abanar a cauda: percebe-se logo se tem trunfos.
O que interessa agora é uma “novidade” no campo da evolução humana: o corar sozinho, o corar a ler ou escrever um WhatsApp ou, melhor: o corar digital.
Corai de vergonha, Charles Darwin! Por esta não esperavas.
É que agora — tem-se vindo a constatar — cora-se sozinho. Não para transmitir nada aos outros, mas numa forma de autotortura. Não me obriguem a repetir todos os clichés sobre a geração Z. Dou-os como lugares-comuns.
Numa era onde comunicação é vigilância. Onde o polícia do terror jovem se chama cringe (a repulsa física vicariante, o policiamento social através do corpo).
A geração Z — repito, é o foco — vive atolada em ansiedade com o que poderão dizer dela. E, sim, aparentemente pode-se corar sozinho. Fruto do pânico ao ver os três pontinhos da escrita na resposta de uma mensagem que demora, pára e recomeça. Mas também com o arrependimento de algo que foi enviado. Ou ao ver um texto “complicado” que não foi lido. Ou por ter enviado um áudio longo que não foi ouvido. Um convite ignorado. Um print imaginado a ser difundido. Uma mensagem sua enviada para o grupo errado. Uma resposta apenas com um seco emoji ok.
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