A universidade tenta resistir à inteligência artificial com guias de boas práticas, mas a transformação é epistemológica e pedagógica
Em dezembro deste ano fará vinte anos que defendi o meu doutoramento. As regras da academia são canónicas e hegemónicas. Só o doutoramento valida, perante os pares, a minha competência para exercer o meu trabalho. Em termos práticos, é um carimbo de legitimação, a credencial que franqueia a passagem para uma nova ordem. Na cerimónia de atribuição do grau, na minha universidade sueca, há séculos que os recém-doutorados recebem o diploma depois de transporem uma fronteira simbólica, marcada no palco, que separa as trevas do mundo do conhecimento. “Te admitto et incorporo in collegium doctorum … cum omnibus honoribus, libertatibus, exemptionibus et privilegiis”, recita o reitor, numa espécie de adhan universitário.
Um académico sem doutoramento é como um sacerdote sem ordenação ou um soldado sem juramento de bandeira.
O título de doutor, do latim doctor (“mestre”, “aquele que ensina”), começou a ser atribuído na Universidade de Bolonha no final do século XII, em áreas como o Direito, a Medicina e a Gramática (ver imagem). Se a licenciatura concede uma “licença” para ensinar, o doutoramento sanciona a entrada na corporação dos mestres. É assim há mais de 800 anos.
Mas estamos em março de 2026. Se a IA recolhe, organiza e disponibiliza quase todo o conhecimento existente, cabe-nos a nós, membros dessa “corporação”, reavaliar o sistema à luz desta mudança.
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