Opinião
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Estou farto desta ficção que se inventa sobre o Alentejo; esta ficção bucólica, solar e positiva que esconde os problemas sentidos pelos alentejanos reais, que não são nem os bangladeshi da fruta nem o caseiro búlgaro da herdade do lisboeta que só vai ali de mês a mês ou nem isso e que nem sabe o que é um chaparro. Estou a falar do desespero do dia-a-dia bem apanhado pela recém falecida Clara Pinto Correia (incrível como um livro com trinta anos continua actual), o desespero do trabalho sazonal, dos nem nem que se arrastam pelos cafés e tabernas, que se matam nas motas ou nas árvores com uma corda. O desespero de terem as piores escolas e uma cultura - em casa - que despreza os livros. O desespero que é ter sempre o hospital a léguas e léguas.
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ouvimos estas musiquinhas alentejanas que são postais fictícios de um Alentejo irreal, fofo e bucólico; na realidade social e política, os alentejanos enterram-se na pobreza, no suicídio, no racismo e o no radicalismo político.
A função da arte é ver o invisível, os alentejanos reais continuam invisíveis.
No Expresso 👈👈


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