Ao meu lado esquerdo uma mulher jovem ri sozinha. Sentou-se no café, e sem comer o bolo que tinha na mesa começou a ver vídeos no telemóvel, suponho que nas redes sociais. Frenética, ia enrolando um atrás do outro sem nunca ver o fim. O som era alto, para incomodar os outros à vontade sem explicações. Ao meu lado direito, uma mulher mais velha tinha também o som alto e ia ouvindo um filme qualquer, sem cuidar de saber se os outros estavam interessados em ouvir a algaraviada. Menos frenética, parecia pasmada e inerte em frente ao ecrã do telemóvel. No resto do café, mais zombies esqueciam-se de comer, pasmados com o esplendor da luz azul. Ao fundo do café, um homem mais velho lia um jornal desportivo em papel com ar desinteressado. Cortemos o plano, piedosamente.
Este é o mundo em que vivemos. À falta de educação junta-se agora o completo desprezo por qualquer atividade intelectual que exija esforço e atenção. Não se trata de deixar ou não deixar de ler jornais e livros, trata-se da lei do menor esforço e do menor denominador comum. Há uma rudeza nestes zombies pasmados que sujeitam os outros ao seu ataque diário de estupidez em alto som. No Japão, em qualquer espaço público é proibido ter o som do telemóvel ligado, mas às nossas canhestras paragens não chegam as boas maneiras. Em Portugal, passámos diretamente da iliteracia para a tecnologia sem transição, sem que a educação ou o conhecimento interferissem. Não espanta que as pessoas se sintam atraídas pelo insulto e a vulgaridade, porque são mais atraentes para a atenção dispersa do que uma atividade da inteligência. Os cérebros estão a ficar apagados. Crescem as forças que movimentam cérebros apagados e preguiçosos.
A morte do papel, que acarretou a morte do livro, não um livro qualquer, um livro que exija tempo e duração da atenção, e a morte dos jornais e revistas de papel, nunca será devidamente chorada. Para as novíssimas gerações, com a sua educação digital, o papel representa um vestígio do Plistoceno. Mas, um grande mas, a extensa oferta digital de livros e revistas não consegue focar a vista naquilo que se convenciona chamar the long form. O texto longo. E os vídeos e podcasts convidam à última negação da leitura, sugerindo que ler é mais trabalhoso do que ouvir ou ver. É esse o ponto. A inteligência implica trabalho e duração do trabalho.
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