5 de janeiro de 2026

Filosofal

Viriato Soromenho-Marques: "A mentira antiga era aquela em que se procurava enganar o nosso adversário, mas sabíamos o que era a verdade".

Hoje, criámos uma sociedade em que a própria mentira “se torna uma mentira moderna” — e hoje ainda os mentirosos “acreditam que a sua mentira é verdade”. Quem o diz é um filósofo e, a partir dessa frase-lâmina, abre o mapa do presente (e do que aí vem) sem enfeites: um mundo em que inventamos e usamos tecnologia mais depressa do que a conseguimos governar, uma Europa que nasceu como promessa política de paz e que tantas vezes se tornou máquina de regras, guerras que rearrumam alianças e espalham sobressaltos, o clima como um limite.

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É filósofo e professor, mas também alguém com um percurso antigo de militância cívica e ambiental, e isso sente-se no modo como a conversa não procura um efeito de palco: procura chão, sempre chão. Foi uma conversa comprida, daquelas que atravessam a manhã e a tarde, em que as perguntas vão mudando de lugar, hão de regressar mais tarde, e a casa de Setúbal vai ficando mais silenciosa à medida que o mundo, lá fora, entra pela porta inteiro.

A certa altura, para resumir o ano e o nosso tempo, escolhe uma palavra e decide justificá-la como quem desenha um mapa para quem lê: “Distopia”. Explica-a pela sombra mais antiga, a utopia, lembrando Thomas More e a ideia de que o sonho moderno não falha por falta de ambição, mas por desmedida — quando os instrumentos que inventámos para melhorar a vida começam a mandar na vida. A conversa ganhará então uma cadência própria: a cada pergunta um seu exemplo, a cada exemplo há uma ligação entre ciência, poder, guerra, economia e democracia — palavra que Viriato Soromenho-Marques diz que está gasta, usada como “chavão”.

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