Talvez tenha passado despercebido, mas Marco Aurélio é hoje um sucesso editorial. Há Marco Aurélio para líderes, empreendedores, atletas, ansiosos e jovens homens em crise. O imperador romano que escreveu as “Meditações” para si próprio, nas campanhas danubianas, para suportar o peso do cargo, transformou-se no guru involuntário da autoajuda dos bros da machosfera instagramável. A sua obra aparece agora reduzida a vídeos com música à “Gladiador”, frases apócrifas sobre o poder da mente, banhos gelados, ginásio, produtividade, misoginia higienizada, culto da disciplina e fantasia de autossuficiência.
Vende-se como protocolo: uma citação matinal, um mergulho em água fria, algum desprezo pelo mundo e uma amputação emocional rebatizada como autocontrolo. Tudo errado, sei. Mas sim, Marco Aurélio é hoje um chefe espiritual do rapaz perdido.
Já andava desconfiado. Há meses, no ginásio, um tipo do ferro confessou-me, com orgulho, que estava a começar o seu primeiro livro. Perguntei qual era. Disse-me que era sobre as “Meditações”, de Marco Aurélio. Quando Marco Aurélio chega à conversa entre séries de supino, já não estamos perante um livro antigo. Estamos perante um sintoma.
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