Bacon, Freud e Hockney tinham bastantes afinidades, sem que nenhuma fosse unânime, mas só David Hockney, que morreu na semana passada, aos 88 anos, se identificou como um artista da alegria, ou das memórias da alegria.
Todos eles valorizavam, é certo, a forma humana, o figurativo, os retratos, e todos tinham relações mais ou menos difíceis com as vanguardas. Freud, neto do psicanalista, mapeou o corpo como o seu avô fizera com a mente, sem se preocupar com a imagem lisonjeira ou não que daí resultasse. Os corpos em Freud, sejam família, amigos, celebridades, outros artistas, modelos, têm grande prazer, ainda que um prazer severo, na multiplicidade de tipos físicos, de tamanhos: compare-se a presença transbordante de Sue Tilley e o minimalismo etrusco de Kate Moss. Dos três artistas, Freud distinguia-se por ser um heterossexual homérico, com vários casamentos e amantes, e assinalável descendência. Mesmo que desviasse a libido para a criação artística, ainda lhe sobrava muito vigor. Pouco programático, Freud documentou os corpos, mas não os comentou. O corpo é o que é, atraente e desejável mesmo quando não canónico, ou francamente desagradável, ou de uma elegância fria, como toda a elegância talvez seja. Bacon, mais radical, é o Soutine do corpo humano, mas em vez de carnes vermelhas no açougue, tem toureiros, pugilistas, homens musculados, feridos, bêbedos, suicidas.
Em contraponto, Hockney deixou o que nos parece habitualmente uma pintura feliz, umas vezes serena, outras cool, com cores suaves ou garridas, quadros que sonham ser posters, ou imagens incessantes da natureza. Era um progressista, mas de ideias estéticas conservadoras, tal como Freud, já que Bacon detestava a ingenuidade antropológica do progressismo. A facilidade de Hockney, ou seja, a abundância do seu legado, isso e uma aparente transparência fizerem dele o favorito dos ingleses, e não apenas dos ingleses, porque era um nómada gregário, vivesse em Londres ou em Paris, Los Angeles, no Yorkshire ou na Normandia. Se não me dizem muito as obras feitas com o iPad, lembro-me de ler entrevistas fascinantes onde Hockney discutia com sensibilidade e delicadeza as estações, que nunca são iguais, dizia.
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