É uma das tribos mais insuportáveis da cidade: os ortodoxos da bina.
Aliás, é dos pares mais chatos da cidade: o privilegiado de esquerda e a sua urban bike, qual rocinante metálico. Esta city bike está para a cultura da cidade como o rosário está para a velhinhas da aldeia: é o totem que dá acesso ao paraíso dos escolhidos.
Na estrada, na relação com os carros, os ortodoxos da bina olham para os condutores com aquele nariz empinado de aristocrata e com aqueles olhos de censura que dizem, Mas porque é que não estão com o futuro, porque é que não largam o vil motor de combustão?
Porquê? É pá, não sei, talvez porque venho do Catujal e não do Príncipe Real, talvez, ou porventura porque tenho dois filhos que tenho de transportar, mas peço desculpa por estar a obstruir a linha de horizonte de v. exa!
Para além desta pose de insuportável beto de esquerda, o ortodoxo da bina não tem cautelas rodoviárias e acha que o código da estrada é bula de remédio: não é bem para ler ou seguir. E, quando são repreendidos, comportam-se como virgens ofendidas. Portanto, deixo aqui uma pergunta: se gastámos milhões nas ciclovias, porque é que os cavaleiros andantes do pedal insistem em vir para cima dos carros, fazendo coisas que tornam a vida de quem conduz ainda mais enervante? Não respeitam sinais ou prioridades, passam alegremente pela direita.
Mas depois é muito engraçado perceber uma coisa: se na estrada, na relação com os carros, as regras não existem, já nas ciclovias, no contato com os peões, as regras passam a valer e o peão que ousa estar no território sagrado é destratado como um vil herege. Porquê? Porque no fundo os ortodoxos da bina julgam que são seres superiores: já que salvam o planeta com a sua santinha, a urban bike, acham que têm permissão moral para desprezar os seres inferiores que têm um motor de combustão. A arrogância moral do ambientalismo tem aqui a sua vanguarda, sem dúvida.
No Expresso 👈👈


1 comentário:
Eu ando de bicicleta quase todos os dias. O que você diz ser a regra, para mim é excepção... Pelo menos aqui em Gaia. Os carros muitas vezes passam-me tangentes e desrespeitam o utilizador da bicicleta. Há de tudo. Mas creio que fazendo um balanço e o numero de carros na estrada comparados com o numero de bicicletas pode fazer uma ideia de quem está em desvantagem...
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