3 de julho de 2026

Curtas e variadas













 

Rodrigo Guedes de Carvalho opina

 

Esqueçam misérias do momento ou azedas trocas de cromos sobre Ronaldo, O Nosso Santinho, e Ronaldo, Já Te Ias Embora. Deixem-me recordar-vos Agapito Pinto, o youtuber rural que vos apresentei, aliás, vai para oito anos, e ainda nada disto era o que é hoje, o que só lhe acentua dotes de futurista.


Vocês lembram-se. Filmou-se numa matança do porco, a surgir entre o espectador e os guinchos lá ao fundo, a elucidar-nos que “o porco não quer”. É um género de conclusão adequada à época. Com a espantosa dedução de que os porcos parecem não apreciar ser esventrados, o bom Agapito foi pioneiro de uma, vá lá, uma tendência, chamemos-lhe assim. Conhecemos hoje reles imitadores que nos recordam que “nunca perdemos, só ganhamos ou aprendemos”, e que “todos as grandes caminhadas começaram com um pequeno passo”.


Bastou-lhe uma matança do porco, ao Agapito, para se tornar famoso. Houve também a velhota que fazia 100 anos e morreu no exacto sopro com que apagava as velas e o Agapito estava a filmar tudo, mas o próprio explicou mais tarde que se tratou de sorte acidental, o que se passa é que ele não poderia desperdiçar a ocasião de meter no YouTube e ficar ainda mais conhecido, porque a vida é assim mesmo, e a gente tem de ter faro para o sucesso. Lembrarão que houve milhares de comentários a insultá-lo, a dizer como é possível, quem é este atrasado mental, mas cada insulto é uma visualização, parecem campainhas sem descanso, em pouco tempo ultrapassou os vídeos de miúdas a ganir com guitarras, a ver se as editoras de discos lhes pegam, o pessoal que põe as gracinhas dos filhos no banhinho, as miúdas que se filmam no espelho do ginásio indignadas porque estão a olhar para elas.


Nas empresas estão naturalmente os melhores gajos do marketing, aqueles que cheiram um bom negócio ainda estamos nós todos a dormir, mas de início também esses


— Isto é inacreditável, abjecto, como é que isto tem tantas visualizações.


Mas se há coisa que o pessoal do marketing sabe, porque estudaram essas cenas, e as estratégias, os targets, o build-up, se há coisa que lhes levanta logo a orelha são milhares de clientes, ali à espera, sentadinhos, mesmo, mesmo à espera de um bom anúncio que os direccione da página do Agapito para uma empresa de prestígio, que vende inutilidades de última geração com que a malta se endivida.


E é então que o Agapito tem mais uma ideia do cacete, lembra-se que os portugueses adoram acidentes, não deve haver cena que mais os excite, basta dois carros darem um toque que só partiu dois piscas e é tudo a abrandar, é logo uma fila que alto lá com ela, o polícia bem pode irritar-se.


— É andar, é andar...


É então que o Agapito tem mais uma ideia do cacete, lembra-se que os portugueses adoram acidentes, não deve haver cena que mais os excite


Que a malta não anda enquanto não perceber, enquanto não vir bem, então se a coisa foi a sério, um dos carros a arder e o outro capotado, então é o pagode, a fila abranda e abranda e fica mesmo parada, com sorte ainda se vê um ferido, ou com mais fortuna um morto, esse momento de alívio de todo o mirone.


— Ainda bem que não fui eu.


Não tendo nenhum curso de Marketing ou Gestão, o Agapito é habitado por um instinto empreendedor, de forma que começa por se colocar numa curva perigosa a caminho da aldeia, com a câmara ligada, a ver se alguém se balda a derrapar, mas os dias passam e nada, e o Agapito num desespero, pelo que tem de puxar pela cabeça, afina estratégias, como se faz nas reuniões das empresas, e numa só semana deita a mão a gatos, galinhas, coelhos e cachorros da vizinhança, enfia-os em cestas e sacos, volta para a curva apertada, aponta a câmara, e um belo dia lá vem um carro a descer, por acaso é a Adozinda com os filhos, mas o Agapito não sabe, e, que soubesse, pega no gato pelo cachaço, atira-o para a estrada, a Adozinda, que já guia mal sem gatos a atrapalhar, guina tudo à esquerda contra uma árvore, e quando já tem filmagens suficientes para o que se chama o início de um projecto, mete tudo na internet, com o aviso que nunca falha.


— Cuidado imajens munto chocantes.


E tanta gente vai lá ver, mas tanta gente, que nos jornais e nas televisões, depois de uma primeira hesitação.


— Isto é terrível.


Alguém lembra que os vídeos do Agapito já trazem aquela etiqueta de êxito a que é muito difícil, impossível resistir.


— Sim, mas a verdade é que já é viral.


— Sim, lá isso é, lá isso é.


— Se não pomos no ar.


— Alguém põe.


— E repara uma coisa, um acidente é notícia, tem de ser, senão estamos a dizer às pessoas que é uma coisa normal.


— Sim, de facto.


— Aproveitamos para entrevistar entidades sobre os perigos nas estradas, o álcool ao volante, o desrespeito pela velocidade.


— Sim, é por aí, bem visto, bem visto.


— Serviço público, no fundo.


— Sim, no fundo.


— Até falamos da desertificação do interior abandonado, estradas em más condições por falta de investimento.


— Isso.


— E pensa assim, os acidentes têm um lado bom, aparecem mais corações para os transplantes.


— Pois é, não me tinha lembrado, há mais essa, é só vantagens.

Dificuldades


 

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2 de julho de 2026

Um poeta, um poema

 Poeta de Cuba


NOCTURNO PARA VINCENT

Tu cielo es el ojo donde el mundo se mira,
Condenándonos, viejo Vincent.
Es una soga y nuestra inocencia es una cabeza desnuda.
Esta vida tan amarga como Tahití a los ojos de tu amigo Gaugin,
Esta vida te da la locura
para que tú le des tus ojos
Y tu delirio lleno de estrellas inhumanas
Y de cometas rondando la noche
Como moscas sin ojos.
Quiénes somos sino los que condenan a sus mejores hijos
Y deben amarlos cuando mueren.
Nadie es culpable de tu tormento, Vincent,
Sino la culpable humanidad que no te elevó
Hacia su pecho lleno de noches.
Eras el silencioso pastor de las estrellas
Y ellas te susurraban una melodía amarilla al oído
Porque la noche lleva tu nombre
Y el día es una cuna para aterrar a tus verdugos.
Es primavera y en Saint-Rémy-de-Provence,
el viento y los símbolos lloran de silencio.
Das el miedo del padre que vuelve a acostar a su hijo para que descanse
Y cierra la noche como un puño debajo de su cabeza.
Tu cielo es el ojo donde el mundo grita nuestra condena,
Tu cielo es la piel de Giordano Bruno ardiendo en la hoguera.

Curtas







Resumo
Coletânea de 17 histórias breves de José Carlos Barros explora temas de regresso ao lar e caminhos sem destino. Com paisagem transmontana e linguagem poética, oscila entre realismo e fantástico, destacando-se os contos de registo fantástico e vinhetas sobre solidão.
Resumo gerado por IA e editado pelo Expresso. 
 

Pedro Mexia opina


Escolas fechadas, escritórios e casas insuportáveis, concertos e jogos cancelados, comboios em caos, a rede eléctrica danificada, hospitais sob pressão, as crianças e os velhos queixosos, os mais pobres a sentir ainda mais a desigualdade, as maleitas da época agravadas (hipertermia, taquicardia, dificuldades respiratórias), aumento da mortalidade sazonal, os casais sem apetência erótica, os vizinhos e colegas irritadiços, descontentamento social, discussões acaloradas sobre o ar condicionado, emergência de uma heat politics, receio dos extremismos. As temperaturas aumentavam agora 0,56 graus centígrados por década, as vagas de canícula eram mais frequentes e intensas, havia uma tropicalização patológica das consciências.

A imprensa francesa das últimas semanas parece uma distopia urbana de J. G. Ballard. A vaga de calor deste ano, que atingiu fortemente alguns países asiáticos, chegou à Europa. E em França, desde 18 de Junho, a situação tornou-se problemática, com o auge no dia 24, data em que se atingiu o valor mais alto jamais registado, 43,3°. Às imagens de aflição somam-se as de alívio, refrigério. Uma álea de sombras num parque, miúdos e graúdos em brincadeiras fluviais, famílias ao fresco em colchões nas varandas, gente que se abriga do sol e procura água e vento, com ventoinhas de todos os tamanhos e toalhas molhadas na cabeça.


***

Diz-se que se fala do tempo, ou seja, da temperatura, quando não há nada para dizer; mas as revistas e jornais franceses reconheciam nas suas capas e manchetes que o tempo, neste caso o clima, não é uma frivolidade, como a idade não é, nem a doença. Andamos entretidos, afadigados, alheados, introspectivos, ou o que seja, mas vemos as vidas de toda a gente iguais à nossa, e toda a nossa sofisticação se reduz a nada. Isto não é fatalismo. Conhecemos o suficiente sobre terramotos ou canículas para podermos minorar os efeitos de uns e outras, quando não podemos controlar as suas causas; mas o estarmos sempre sujeitos à água, ao sol, ao fogo, ao frio, ao mar, à chuva, à fome ou à doença servirá também para nos lembrarmos de que somos, camonianamente, um bicho da terra tão pequeno.



Até o inverno


 

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1 de julho de 2026