Imaginemos que vivemos num clima hostil, rodeados de gente que nos quer mal, de feras, de artefactos capazes de dar cabo de nós, de remédios adulterados, de instituições que só pretendem roubar-nos. Se pensarem, é mais ou menos este o ideário que a franja hostil, populista e antiliberal das nossas sociedades pretende que acreditemos.
A bondade, as boas intenções, a compaixão têm o carimbo de coisas antiquadas. O amor ao próximo, a fraternidade, o perdão caem nas categorias fora de moda. Tudo está mal, mesmo que tudo esteja melhor do que era, e todos nos querem mal, enganar, e apenas agem em benefício próprio.
Basta ouvir os discursos políticos, sobretudo os do Chega, mas também alguns da extrema-esquerda e até de partidos mais centrais e responsáveis, para sentirmos que, do ponto de vista de quem os produz, vivemos num meio hostil e temos de estar atentos para não sermos atacados a qualquer momento, como os soldados da fortaleza de “O Deserto dos Tártaros”, o genial romance de Dino Buzzati, escrito há mais de 80 anos.
É esta desconfiança que nos leva a complicar cada vez mais a vida, na esperança de evitar qualquer ataque. Entricheiramo-nos em leis, regulamentos, normas, assinaturas, selos, declarações, juras, promessas. E, apesar de tudo, cada vez mais os ‘tártaros’ se infiltram entre nós, denunciando tudo e todos, seja por ilegalidades e irregularidades graves, seja por puras invenções, motivadas pela mesquinhez e a inveja que levam a pequenas vinganças. Porém, se a confiança é algo indispensável para uma vida saudável e feliz, por que motivo se instiga a desconfiança a cada passo? Eis algo a que não consigo responder...
***
Porém Habermas alerta para a fragilidade das instituições, que abandonaram os preceitos democráticos e passaram a orientar-se pela eficiência técnica, burocrática e económica, ao mesmo tempo que vão acumulando défices de legitimidade, ao deixarem de corresponder aos anseios da sociedade, criando desinteresse e alienação. O filósofo alemão teve esperança de que o mundo digital pudesse ser um grande espaço de debate público sem relações de poder estabelecidas, mas desencantou-se perante a realidade da desinformação, dos algoritmos, das redes sociais e da manipulação.
A confiança esvaiu-se, e é substituída pela permanente suspeita.


Sem comentários:
Enviar um comentário