Se somos feministas a sério e até ao fim, então temos de assumir que uma mulher pode ser tão perversa e cruel como um homem. A igualdade não é só para as virtudes, também é para os defeitos da espécie humana
A senhora francesa abandonou os filhos com uma crueldade esmerada, qual ourives do mal; a venda nos olhos das crianças é protérvia em filigrana: pensada e executada com tempo, como se fosse um conto dos Irmãos Grimm. Não foi uma explosão brutal, explosiva e instintiva, foi um ato de uma crueldade enquanto escolha meticulosa.
E esta crueldade coloca em causa diversas narrativas muito populares. Se esticarmos este novelo, vamos desmontando mito atrás de mito.
Destaco três.
Em primeiro lugar, estilhaça um medo que todos nós partilhamos: nós fechamos as crianças em ambientes protegidos, não permitimos que elas andem na rua como nós andávamos, porque achamos que há sempre um pedófilo ou um psicopata ao virar da esquina, porque assumimos de forma ingénua que o mal só pode ser praticado por estranhos. Não é verdade. Como, aliás, se vê neste caso, a violência sofrida pelas crianças vem sobretudo de familiares, amigos, conhecidos. De resto, nesta fase do campeonato, tenho de dizer que já não estamos só a ser ingénuos. Os dados são conhecidos por toda a gente. É negação, denial puro; é a negação da realidade enquanto forma de sobrevivência moral: como não podemos controlar todas as pessoas da nossa intimidade e do dia a dia das crianças (na escola, no clube, na igreja), resta-nos controlar o exterior de onde vem menos perigo. É um comportamento completamente ilógico e completamente humano.
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