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É uma ideia de génio marcar uma greve geral na véspera de um feriado que cai a uma quinta-feira. Bem vistas as coisas, os trabalhadores ganham dois dias mais a sexta-feira, em que podem invocar e negociar tolerância de ponto ou simplesmente enfiá-la no calendário geral dos dias de férias, marcando mais um dia de férias na ponte. Resta a possibilidade de apresentar uma justificação para a falta com uma baixa médica autodeclarada. Como se vê, as possibilidades existem e devem ser exploradas, tanto mais que o tempo está bom e convida à praia e ao lazer. Se os comunistas quiserem aproveitar o dia para uma daquelas manifestações que entopem o trânsito, é lá com eles. Têm raras ocasiões para esse entretenimento coletivo, visto que o coletivismo se faz escasso nos dias que correm. E o comunismo mais escasso ainda.
Com um módico de cálculo e planeamento, arranja-se um prolongamento ajuizado até ao dia 10 de junho, o grande feriado nacional, que paralisa o país como uma greve geral e que toda a gente aproveita não para celebrar Camões, cuja celebrada língua desapareceu há muito engolida pelo patuá do Acordo Ortográfico irmanado com a tecnologia do menor esforço. Iremos viajar, nem que seja até ao mar mais próximo.
As greves nas vésperas de feriados e à sexta-feira são uma nobre tradição portuguesa. Muito disfarçada com direitos e reivindicações de trabalhadores. Quanto aos dias não pagos, não chegam a constituir problema, visto que os salários são tão baixos que a mossa é pequena. E os patrões, incluindo o Estado, também vão de férias e apreciam a sua “ponte”. Assim nos arrastamos no eterno ciclo dos baixos salários e da baixa produtividade quebrados por intervalos de pontes e greves apontadas.
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