Foi assim, e foi sempre assim, em períodos igualmente controversos e perigosos da História americana. Há sempre um cheiro de rebelião a cobrir o cheiro insalubre do pântano. Enquanto esse gigantesco suborno de Jeff Bezos aos Trumps que dá pelo título de “Melania”, o filme, passa nos ecrãs, e enquanto Trump encerra o Kennedy Center por dois anos para estancar a rebelião dos artistas que recusaram atuar depois de ter sido nomeado Trump Kennedy Center for the Performing Arts, enquanto o país vive desorientado e combativo a experiência do autoritarismo narcísico e megalómano, uma experiência bizarra no laboratório de liberdade, acontece o Super Bowl. O cenário de fundo é o folhetim sem fim da corrupção do caso Epstein, que mancha tudo e todos, de democratas a republicanos, de Chomsky a Woody Allen e de Bill Clinton a magnatas, intelectuais e princesas. A corrupção é a do dinheiro e do poder, do tráfico de influências, e transcende o escândalo da pedofilia.
Nesse país, que parece perdido, aconteceu o Super Bowl 2026. O Super Bowl não é um espetáculo qualquer. É o supremo espetáculo do futebol americano, um desporto tão espetacularmente violento, e por isso mesmo tão americano, que os europeus têm dificuldade em compreendê-lo. É essa a nossa principal distinção dos americanos. A Europa foi sempre um continente violento que gerou duas guerras mundiais com milhões e milhões de mortos, que gerou ideologias letais e assassinas, do nazismo ao maoismo, de Estaline a Pol Pot, e que parecia ter aprendido a lição. Mas nunca se sabe. Os falcões de poltrona andam ativos, acolchoados pelo distinto lóbi das armas, que nunca descansa na sede de conflitos lucrativos.
Apesar do gosto pelo sangue no passado, e que durou séculos, a civilização e as democracias europeias são hoje aversas ao espetáculo da violência. Os traumas das duas grandes guerras podem estar esquecidos, ou pode ser que o gosto pela morte regresse, mas a segunda metade do século XX e o primeiro quarto do século XXI têm demonstrado sensatez e os usos da diplomacia. Nisso, o velho projeto europeu foi um êxito, e não custa compreender o impulso de Trump e dos oligarcas na sua destruição. É um obstáculo ao projeto de dominação mundial e da economia digital que inventaram.
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Em 2016, quando Kaepernick se ajoelhou com a mão no peito, Bad Bunny era um miúdo sem cheta que empacotava mercearias numa loja de Puerto Rico e fazia pela vida. Era marçano. Hoje é o artista do topo do Spotify. É uma estrela. Megastar em vez de magastar. E isto também é a América. Residual, pode ser, o sonho americano ainda vive.
Como disse Bunny, ainda estamos aqui.


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