Hoje, num canal de séries antigas, começou a dar “O Justiceiro”, e de repente percebi o motivo da minha embirração com a IA: o ChatGPT faz-me lembrar o KITT, o irritante carro de Michael Knight. O que faz com que os utilizadores de chatbots sejam Michael Knight, o cabotino motorista de KITT. Não é um destino agradável nem para os chatbots nem para os seus utilizadores. Tanto o KITT como Michael Knight foram justamente arquivados na secção “foleiro” do caixote do lixo televisivo, pelo que o facto de a realidade estar a imitar má ficção dos anos 90 não deve alegrar ninguém.
Devo dizer, no entanto, que já antipatizo com tecnologias há muito. Assim como antipatizo com quem não antipatiza. Recordo com nostalgia a profunda repugnância que nutri pelas pessoas que, quando apareceu aquele aparelhinho que se enfiava no ouvido e permitia atender o telemóvel lá, exibiam a sua orelha biónica com ar de grande superioridade. E sempre desconfiei das redes sociais, tanto no tempo em que elas eram óptimas porque contribuíram para a vitória do Obama, como quando passaram a ser péssimas porque contribuíram para a vitória do Trump. Agora antipatizo bastante com a inteligência artificial. Antipatizo até com a própria designação porque, em rigor, aquilo não é inteligência. É um sistema de inferência automática. A IA está para a inteligência como um papagaio está para a fala. É um papagaio estocástico, como disse a linguista Emily Bender, fazendo assim com que eu fosse perguntar à IA o que é que estocástico quer dizer.
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No Expresso


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