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Sobre a felicidade a única coisa que conhecemos ao certo é a vastidão da sua procura. Nisso reside precisamente o que de subversivo pode ter o termo, pois, de resto, é tontice de cançoneta ou engano de padres. A felicidade como anseio é assim, radicalmente, um projeto de inconformismo: nada do que nos é oferecido pode bastar. Trata-se do mais arrogante dos ideais, pois assume descaradamente que acusá-lo de «impossível» é nada dizer contra ele. Impossível, mas imprescindível: irredutível. O seu rosto permanece obstinadamente oculto, mas a nitidez do seu reverso basta para nos impelir a pedi-la sem concessões: tal como Jeová a Moisés, só nos mostra as suas costas (ou o traseiro), mas também neste caso essa ocultação acaba por ser benéfica. Qualquer um dos habituais sinónimos falha quando tenta substituí-la, porque o seu ápeiron é, em última análise, mais imprescindível para entendê-los ou, pelo menos, defini-los do que eles servem para a concretizar. O prazer ou a utilidade ou até o bem nada significam enquanto ideais de vida se não forem referidos à felicidade, enquanto esta se obstina em não se deixar esgotar por nenhum deles, nem sequer pelo seu conjunto. Esta resistência acaba por ser novamente subversiva pois desse modo falham os mais habituais prémios à produtividade e as recompensas pela obediência, nas quais se baseia a falsa reconciliação coletivista, seja liberal ou autoritária. A felicidade é ainda aquilo que os políticos não se atrevem a prometer diretamente nos nossos dias.
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