27 de maio de 2026

Sobre a eutanásia

 


Enquanto escrevo, o meu gato “Rufino” já se sentou ao lado do ecrã na sua pose geriátrica majestosa, de capataz do tempo das pirâmides, à espera que o apetite regresse para me impor a sua vontade. É assim há 14 anos. Há uns seis meses começou a emagrecer. Após testes penosos e biópsias cirúrgicas, o veterinário ditou: “Tem uma doença rara. É fatal. Não há muitos estudos, sequer. Vamos tentar acertar com cortisona. Mas altas doses de cortisona têm efeitos colaterais que acabarão por ter um preço…” Foi qualquer coisa assim. Não me lembro das palavras ipsis verbis. Tinha o destino traçado.

Ou melhor: desde então, passou para o meu lado a decisão sobre a vida e a morte do “Rufino”. Terei de ser eu a determinar o momento em que o sofrimento dele seja maior do que a sua “qualidade de vida”. É o paradoxo do consentimento, mas invertido. Não nos levanta grande problema moral a eutanásia nos animais porque não compreendem o conceito de morte, não pesam alternativas, não exprimem preferências. Aliás, são os nossos amigos que dizem: “Não sejas egoísta e não o deixes viver demais.” É uma experiência mental de quase singeriana, mas invertida: se aplicássemos aos animais as restrições que impomos à eutanásia humana — múltiplas avaliações, períodos de espera, aprovações burocráticas enquanto o animal sofre — a maioria das pessoas consideraria isso cruel. Um paradoxo da misericórdia.

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